“Ler sem entender é o mesmo que não ler.”
Essa frase, embora impactante, é o ponto de partida para uma das críticas mais importantes à educação contemporânea: a persistência de uma alfabetização sem sentido. Em muitas salas de aula, ainda se acredita que aprender a ler significa apenas aprender a juntar letras e formar palavras. No entanto, a capacidade de decodificar não garante a capacidade de compreender — e compreender é o que realmente importa.
A Crítica à “Educação Bancária” e a Leitura de Mundo
Paulo Freire, um dos maiores educadores da história, chamou de educação bancária aquele modelo em que o professor deposita conteúdos na cabeça dos alunos, como se fossem cofres vazios. Nesse modelo, não há diálogo, não há conexão com a vida real e, principalmente, não há compreensão crítica do mundo. Para Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (Freire, como citado em Britto, 2013). Isso significa que, antes mesmo de saber ler no papel, a criança já está lendo sua realidade, interpretando seu contexto, formando sentido.
Quando a alfabetização se resume à decodificação, ela se distancia dessa leitura de mundo. Ensina-se a criança a repetir sons, a reconhecer sílabas, mas não a pensar. Não se pergunta: “O que esse texto quer dizer? O que isso tem a ver com a minha vida? Como isso me ajuda a entender o mundo à minha volta?”. Reduzir a leitura a uma simples decodificação é um risco à organização psíquica e ao desenvolvimento pleno do indivíduo, pois impede a mente de construir narrativas complexas e significados profundos (Melo, 2021; Lobo, 2015).
Alfabetizar é Formar Leitores Pensantes
A leitura com sentido exige muito mais do que a decodificação mecânica. Exige escuta, reflexão, análise. Por isso, a alfabetização deve estar ligada à educação dialógica, em que o conhecimento é construído na relação entre sujeito e mundo, entre texto e contexto, entre palavra e experiência. Essa abordagem é o oposto da educação bancária. Em vez de ensinar apenas o código, ela ensina a pensar o código. O texto não é mais um objeto a ser decifrado, mas um universo a ser explorado.
A leitura literária e a leitura narrativa são fundamentais nesse processo. Enquanto a leitura literária oferece uma experiência transformadora, que questiona o mundo e estimula a liberdade (Machado, 2004), a leitura narrativa ajuda a organizar a própria mente. A gramática narrativa, com suas estruturas de sequência e causa-efeito, como descrito por teóricos como Tzvetan Todorov e Thorndyke, é internalizada, permitindo ao leitor construir e interpretar histórias, tanto as dos livros quanto a sua própria (Gomide, 2008; Lopes, 2020). Essa capacidade é crucial para a organização psíquica e o desenvolvimento do pensamento crítico.
Quando o aluno aprende a ler com sentido, ele não apenas entende o que está escrito — ele começa a interpretar o mundo. Ele questiona, reflete, conecta. Ele não repete: ele responde.
Por Que Isso Importa Tanto? Dados e o Paradoxo da Informação
Os dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) são alarmantes: 29% da população brasileira entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional. Isso significa que quase um terço das pessoas consegue ler palavras, mas não entende o que lê e, por isso, não consegue aplicar esse conhecimento no cotidiano (UNICEF, 2024; Fundação Carlos Chagas, 2024).
Mais grave ainda: esse índice não melhorou entre 2018 e 2024 e aumentou entre jovens de 15 a 29 anos. Mesmo entre pessoas com ensino médio completo, 17% ainda são consideradas analfabetas funcionais. E entre as que fizeram ensino superior, apenas 24% atingem o nível proficiente de leitura (INAF, 2024).
Esses números escancaram a falência de um modelo de alfabetização focado apenas na técnica. Eles mostram que o problema não é só de acesso à escola, mas de sentido na escola. Os alunos estão lá, mas não estão aprendendo a pensar. Vivemos o paradoxo da hiperexposição à informação: somos bombardeados por dados e textos, mas a capacidade de leitura profunda – aquela que exige complexas funções cognitivas, atenção sustentada e reflexão crítica – está diminuindo, muitas vezes em favor de uma leitura superficial focada apenas em passar os olhos (Ramos, 2018; Wolf, 2018). Essa sobrecarga cognitiva dificulta a compreensão e o discernimento (FasterCapital, 2023).
Leitura com Sentido É Cidadania e Cura Simbólica
Ler com profundidade, entender o que se lê, é condição básica para participar da vida em sociedade. Sem isso, a pessoa fica vulnerável à desinformação, à manipulação e à exclusão. A leitura crítica é a base para uma cidadania plena e uma ferramenta de libertação intelectual e social (Silva & Almeida, 2021).
É por isso que a leitura é descrita como “politicamente potente” no relatório Leitura: Ferramenta, Bússola e Cura (2025). Porque quem lê com sentido questiona, resiste, transforma. A leitura profunda forma cidadãos conscientes, capazes de navegar pelas complexidades do mundo atual com discernimento e autonomia. Além disso, a leitura funciona como uma cura simbólica, sendo amplamente reconhecida pelos benefícios da biblioterapia na saúde mental, auxiliando na redução do estresse, no desenvolvimento da empatia e no autoconhecimento, ao permitir que o leitor se veja e se entenda através das experiências dos outros (Martins, 2024; Silva, 2023).
Para Além da Escola: Leitura como Vida
Ensinar a ler com sentido não é tarefa só da escola. Famílias, bibliotecas, comunidades, todos têm um papel fundamental na formação do leitor. A leitura deve fazer parte da vida, ser uma prática cultural viva, cotidiana, conectada com as experiências, afetos e perguntas de cada pessoa.
A alfabetização verdadeira não termina quando a criança aprende a juntar letras. Ela só começa ali. A missão é formar leitores que entendem, que sentem, que pensam. Porque ler sem compreender é apenas ver letras. Mas ler com sentido é ver o mundo — e transformá-lo.
Referências
Britto, L. P. L. (2013). A leitura do mundo: Fundamentos para uma pedagogia da libertação. Cortez.
FasterCapital. (2023, 24 de fevereiro). Sobrecarga cognitiva: O que é e como evitá-la. Recuperado de https://fastercapital.com/pt/conteudo/Sobrecarga-cognitiva–o-que—e-como-evita-la.html
Fundação Carlos Chagas. (2024, 18 de março). Analfabetismo funcional: índice entre os brasileiros não recua e mantém patamar registrado em 2018. Recuperado de https://www.fcc.org.br/fcc-noticia/analfabetismo-funcional-indice-entre-os-brasileiros-nao-recua-e-mantem-patamar-registrado-em-2018/
Gomide, R. C. (2008). Tzvetan Todorov e a gramática da narrativa. Revista do Gel, 5(2), 1-13.
Lobo, L. S. (2015). A leitura como ferramenta de organização psíquica. Revista de Psicologia, 8(1), 45-60.
Lopes, M. C. (2020). A importância da leitura narrativa para o desenvolvimento da mente. Educar Hoje.
Machado, A. M. (2004). A leitura literária e a construção da liberdade. Pepsic.
Martins, L. (2024, 25 de abril). Biblioterapia: O poder dos livros para a saúde mental. Jornal da USP. Recuperado de https://jornal.usp.br/universidade/biblioterapia-o-poder-dos-livros-para-a-saude-mental/
Melo, C. A. (2021). A leitura profunda e a mente narrativa. Editora Cognição.
Ramos, R. (2018). Leitura superficial vs. profunda: Como a leitura remodelou nosso cérebro e por que estamos em risco. Ulme.
Silva, A. C., & Almeida, B. R. (2021). A leitura como formação cidadã e ferramenta política. Educação Pública, 22(33).
Silva, J. (2023, 11 de julho). Autoconhecimento através da leitura: Descubra o poder transformador dos livros. Auster. Recuperado de https://auster.com.br/blog/autoconhecimento-atraves-da-leitura/
UNICEF. (2024, 18 de março). Analfabetismo funcional não apresenta melhora e alcança 29% dos brasileiros, mesmo patamar de 2018, aponta novo levantamento do INAF. Recuperado de https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/analfabetismo-funcional-nao-apresenta-melhora-e-alcanca-29-por-cento-dos-brasileiros-mesmo-patamar-de-2018-aponta-novo-levantamento-do-inaf
Wolf, M. (2018). Reader, come home: The reading brain in a digital world. HarperCollins.

