Como podemos ter tantos anos de escola e tão pouco letramento?
Essa pergunta provoca e inquieta — e precisa ser respondida com seriedade. O Brasil vive uma contradição profunda: milhões de pessoas concluem etapas formais da educação básica e superior, mas não conseguem compreender plenamente o que leem. A isso damos o nome de analfabetismo funcional.
Uma pessoa funcionalmente analfabeta sabe ler palavras, mas não entende o que está lendo. Ela pode decodificar um texto simples, mas tem dificuldade para interpretar, refletir, argumentar ou aplicar aquela informação em situações do dia a dia. Isso significa que ela não consegue, por exemplo:
Portanto, o analfabetismo funcional não se refere à ausência total da leitura, mas sim à ausência de compreensão significativa. E esse é um problema muito mais comum — e mais invisível — do que imaginamos. É a diferença entre saber o código e saber o sentido, um abismo que limita a autonomia e a participação plena na sociedade (Silva & Almeida, 2021).
Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), impressionantes 29% da população brasileira entre 15 e 64 anos é funcionalmente analfabeta. Esse número, que já era alarmante em 2018, permaneceu inalterado em 2024, demonstrando uma estagnação preocupante no letramento do país (Fundação Carlos Chagas, 2024; UNICEF, 2024).
Mais preocupante ainda: o índice de analfabetismo funcional entre jovens (15 a 29 anos) aumentou, passando de 14% para 16%. Isso significa que estamos falhando justamente com as novas gerações, que deveriam estar mais próximas dos benefícios da escolarização contemporânea e do mundo digital (UNICEF, 2024).
A fragilidade do letramento atravessa até mesmo os níveis mais altos de escolaridade:
Esses números revelam um paradoxo educacional gritante: a escolaridade aumentou, mas o letramento pleno não acompanhou esse avanço.
Durante muito tempo, o foco das políticas públicas foi garantir o acesso à educação — uma conquista importante e necessária. Mas hoje é preciso olhar com atenção para a qualidade da alfabetização.
A escola brasileira, em muitos casos, continua centrada na decodificação técnica, no ensino mecânico de regras, sem garantir que o aluno compreenda, reflita e aplique o que lê. Essa abordagem fragmentada contribui para formar leitores que reconhecem palavras, mas não constroem sentido. É como aprender a tocar notas no piano sem nunca ouvir uma melodia. Paulo Freire já alertava para os perigos dessa “educação bancária”, onde o conhecimento é depositado e não construído, falhando em desenvolver uma leitura crítica do mundo (Britto, 2013).
A escolarização não garante letramento pleno. A leitura com sentido exige mais do que presença na escola: exige experiência, diálogo, vínculo e reflexão. Quando a alfabetização técnica é isolada da vida real e da reflexão crítica, ela perpetua o ciclo da exclusão — ainda que com o diploma na mão.
Há também um recorte racial e geracional importante nesses dados: apenas 31% dos brasileiros pretos e pardos estão nos níveis mais altos de alfabetismo, contra 41% dos brancos. E embora o grupo com maior incidência de analfabetismo funcional esteja entre 40 e 64 anos, os dados revelam um aumento entre os jovens — um alerta para o futuro da nossa sociedade (Fundação Carlos Chagas, 2024).
Em 2024, pela primeira vez, o INAF avaliou também as habilidades digitais da população. O resultado? 95% das pessoas com analfabetismo funcional apresentaram baixo desempenho em tarefas digitais (Fundação Carlos Chagas, 2024).
Isso significa que não saber ler bem impacta diretamente a inclusão digital. O analfabetismo funcional, nesse contexto, amplia a desigualdade, tornando ainda mais difícil o acesso à informação, ao trabalho, aos serviços públicos e, em última instância, à cidadania plena. Em um mundo cada vez mais conectado, a falta de letramento digital se torna uma nova barreira para a participação social e econômica (Ramos, 2018).
O analfabetismo funcional é silencioso, porque está escondido atrás de diplomas, empregos e discursos de progresso. Mas seus efeitos são profundos: impede a autonomia, enfraquece a democracia, restringe o pensamento crítico e perpetua a exclusão social.
Não se trata apenas de ensinar a ler palavras. Trata-se de ensinar a compreender o mundo, a questionar, a tomar decisões com base em informação qualificada, a se expressar de forma autônoma e crítica. A leitura com sentido é um direito fundamental. E o analfabetismo funcional, embora invisível, precisa ser tratado como uma emergência educacional, social e política que exige ações abrangentes e focadas na qualidade da compreensão.
Britto, L. P. L. (2013). A leitura do mundo: Fundamentos para uma pedagogia da libertação. Cortez.
Fundação Carlos Chagas. (2024, 18 de março). Analfabetismo funcional: índice entre os brasileiros não recua e mantém patamar registrado em 2018. Recuperado de https://www.fcc.org.br/fcc-noticia/analfabetismo-funcional-indice-entre-os-brasileiros-nao-recua-e-mantem-patamar-registrado-em-2018/
Ramos, R. (2018). Leitura superficial vs. profunda: Como a leitura remodelou nosso cérebro e por que estamos em risco. Ulme.
Silva, A. C., & Almeida, B. R. (2021). A leitura como formação cidadã e ferramenta política. Educação Pública, 22(33).
UNICEF. (2024, 18 de março). Analfabetismo funcional não apresenta melhora e alcança 29% dos brasileiros, mesmo patamar de 2018, aponta novo levantamento do INAF. Recuperado de https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/analfabetismo-funcional-nao-apresenta-melhora-e-alcanca-29-por-cento-dos-brasileiros-mesmo-patamar-de-2018-aponta-novo-levantamento-do-inaf